Uma receita que atravessa gerações!
Há receitas que se aprendem nos livros e há outras que se herdam. Esta pertence às segundas. Veio da minha avó, passou para a minha mãe e, naturalmente, chegou até mim. Não sei ao certo há quantos anos se faz assim na nossa família, mas sei que o seu aroma tem qualquer coisa de casa, de infância e de mesa cheia.
É uma daquelas receitas antigas, feitas com ingredientes simples e sem grandes cerimónias. Um bom refogado, ervilhas, cenoura, umas rodelas de chouriço e ovos escalfados no próprio molho. No final, os coentros dão-lhe aquele perfume inconfundível. Comida portuguesa, simples e honesta, como antigamente.
Ingredientes
- 1 chouriço de carne/mouro
- 2 tomates maduros, cortados em pequenos cubos
- 1 bom ramo de coentros frescos
A receita começa como tantas boas receitas portuguesas…
No fundo de um tacho largo, coloco um generoso fio de azeite, a cebola e os alhos picados e uma folha de louro. Deixo refogar devagar, até a cebola ficar macia e ligeiramente dourada.
Junto então o tomate cortado em pequenos cubos e deixo-o cozinhar tranquilamente, até começar a desfazer-se e a fundir-se com o refogado. É nesta altura que a cozinha começa a ganhar aquele aroma familiar que, para mim, sabe imediatamente a casa.
Acrescento o chouriço cortado às rodelas e deixo-o cozinhar um pouco no refogado, libertando lentamente a sua gordura, a cor e aquele sabor fumado que vai enriquecer todo o caldo.
Junto água suficiente para criar um molho generoso e deixo levantar fervura. Quando começa a borbulhar, entram as ervilhas e as cenouras cortadas às rodelas ou aos cubinhos. Tempera-se com sal e pimenta e deixa-se cozinhar em lume brando, dando tempo para que todos os sabores se encontrem.
Durante a cozedura vou provando e retificando os temperos. Estas receitas antigas têm muito disso: não vivem apenas de quantidades certas, vivem do provar, do olhar e daquele instinto que se vai aprendendo à volta do fogão.
Quando as ervilhas e a cenoura estão tenras e o caldo já ganhou corpo e sabor, faço pequenos espaços entre elas e abro os ovos diretamente para dentro do tacho, um a um. Tapo e deixo-os escalfar suavemente, sem mexer, até as claras estarem cozidas e as gemas ainda deliciosamente cremosas.
Desligo o lume e termino com aquilo que, para mim, não pode faltar: um belo ramo de coentros frescos, que perfuma o tacho inteiro e dá o toque final.
E está pronto.
Um tacho fumegante no centro da mesa, pão à mão para molhar naquele caldo e pouca coisa mais é necessária.
Porque esta não é apenas uma receita de ovos escalfados com ervilhas e chouriço. É uma receita da minha avó, depois da minha mãe e agora também minha. E talvez seja essa a verdadeira magia das receitas de família: os ingredientes vão para o tacho, mas as memórias sentam-se connosco à mesa.
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